segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pernas frias

As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roía-me por dentro.
Ora, um dia, sem motivo, convidei d. Aurora para o cinema. Tenho desses rompantes idiotas. Faço uma tolice sabendo perfeitamente que estou fazendo tolice. Quando tento corrigir o disparate, caio noutro e cada vez mais me complico. Foi o que se deu. Convidei d. Aurora e a neta para o cinema. Arrependi-me e ofereci-lhes refrescos. Aceitaram tudo -- e começou a minha tortura. Lá fui com elas, capiongo, pagar bonde, sorvetes e três cadeiras. Tipo besta.
-- Agüenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.
E contava mentalmente o dinheiro suado e mesquinho. Na sala de projeção a neta de d. Aurora abriu um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de roer-me. O que eu estava era indignado. E calculava. Três passagens de bonde -- mil e duzentos. Três sorvetes -- três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema. As coxas da moça eram frias. Com certeza fazia aquilo por hábito. Naquele tempo eu andava como um bode. Mas esfriei também. Cinco mil-réis por seis horas de trabalho, à noite, suspensões, multas, o jornal indo para cima e para baixo. Era um sofrimento a idéia de que no fim da quinzena ficaríamos sem o cobre que estava enganchado.
-- Hoje ninguém recebe.
Lá ia, de cabeça baixa, beber um copo de caldo de cana e comer um pastel. Os níqueis amarrados como dinheiro de matuto. Pois, numa quebradeira assim, bonde, sorvete, cinema. E ainda faltavam as passagens de volta. A fita era tão comprida! A moça tinha as pernas frias.
Graciliano Ramos, em "Angústia".

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